Deus contraditório?

O Deus do Antigo e o do Novo Testamento me parecem contraditórios entre si. O primeiro é vingativo e assassino, e o outro é amoroso e bom. Que sentido há em deixar que o pecado cresça, para depois sacrificar alguém para livrar as pessoas do pecado, e ainda assim o pecado continuar crescendo? Outra coisa é, se quem vai julgar sou eu e quero perdoar, para que toda a encenação da morte de alguém que é imortal? Considerando que Jesus é Deus e tem como atributo ser todo-poderoso, o que ocorreu foi um suicídio de “brincadeirinha”; Ele Se deixou matar com todo um teatrinho. Mas como Se deixou matar se outro atributo de Deus é a imortalidade? A Bíblia diz que Deus é bom e todo-poderoso, mas Ele nada fez para impedir a desgraça de Jó. Isso é ser bom? – D.

Se você analisar a forma como um pai lida com um filho de três anos de idade e, posteriormente, lida com esse mesmo filho na adolescência, poderá dizer que o pai é contraditório. Alguns até admitem que se dê algumas palmadas corretivas numa criança, ou que se lhe aplique um castigo. Mas fazer isso com um jovem é ridículo. As mudanças de atitude de Deus apenas refletem a maneira como Ele teve que lidar com os diferentes tipos de povos, levando em conta a maturidade espiritual deles. Note que as atitudes mais drásticas de Deus aconteceram com o povo hebreu logo que saiu do Egito. Era um povo escravo, iletrado, acostumado à violência. Deus queria elevá-los à categoria de “povo escolhido” para alcançar as demais nações com Sua mensagem. Como falar-lhes inicialmente com a linguagem do amor, do carinho, na “maciota”, se eles não compreenderiam? No momento certo, quando as pessoas já tinham condições de compreender, Deus Se manifestou de forma mais aberta, através de Jesus, “a expressa imagem do Pai”, como diz o Novo Testamento.

Se se aceita a noção bíblica do Grande Conflito entre o bem e o mal, tudo fica mais fácil de entender. Deus tem em vista o bem eterno do Universo. Seu governo foi desafiado pelo mais poderoso e respeitado dos anjos. Se o Criador não desse tempo para que os frutos do pecado e da rebelião se manifestassem, muitos seres ficariam em dúvida, talvez considerando que as acusações de Lúcifer pudessem ter razão. A Bíblia diz que “somos espetáculo ao Universo, tanto a homens quanto a anjos”. De que espetáculo você acha que ela está falando aqui? Justamente do espetáculo do pecado, aspecto singular deste planeta. A Bíblia também diz que o sacrifício de Cristo já estava decidido mesmo antes da criação do mundo. Ou seja, providências já haviam sido tomadas caso o homem escolhesse pecar. Não foi uma “encenação” arranjada. Foi uma troca chamada “redenção”. Deus assumiu a culpa pelo pecado humano (por isso a Bíblia diz que Jesus “Se fez pecado por nós”) e nos deu o direito à vida eterna, mesmo sendo nós, por herança adâmica, pecadores. Mas ainda morremos, você pode dizer. Sim, mas temos a garantia da vida eterna quando Jesus voltar. Cristo morreu, como diz a Bíblia, “na plenitude dos tempos”, no momento certo em que as pessoas poderiam compreender Sua obra e essa notícia poderia ser espalhada pelo mundo, para que as pessoas pudessem crer e aceitar a oferta da salvação.

Jesus, como Deus, é imortal (tanto que ressuscitou). Mas como homem, assumiu a natureza humana, que podia morrer e efetivamente morreu. Note que, não tendo pecado, Jesus não merecia morrer. Por isso é o verdadeiro substituto. Essa “amálgama” entre a natureza divina e a natureza humana, em Cristo, é chamada de o “mistério da piedade”.

Já com respeito à história de Jó, novamente tudo fica compreensível quando se leva em conta o Grande Conflito. Satanás acusou a Deus, dizendo que Jó só O reverenciava e amava porque era abençoado. Logo, era praticamente impossível servir a Deus, dizia Satanás, num mundo de tantas dificuldades. O interessante é que Deus conhecia o coração de Jó e sabia que podia contar com ele para mostrar ao Universo que é possível, sim, ser obediente e servir a Deus pelo simples fato de saber que isso é o certo a ser feito e o melhor para os seres criados. Tanto que, num certo momento, Jó chega a dizer: “Ainda que Ele [Deus] me mate, eu vou confiar nEle.” Que fé!

Essa história (que segundo pesquisadores foi escrita por Moisés) é muito interessante. É como se Deus estivesse pedindo “ajuda” a um ser humano, a fim de demonstrar que Seus filhos O amam independentemente do que Ele faça por eles. Jó sabia que não havia feito nada de errado, como seus “amigos” tentaram fazê-lo admitir, e esperou pacientemente pela resposta de Deus. Imagino, na ressurreição, quando esse homem compreender que deu uma lição em Satanás e para todo o Universo, o quão privilegiado se sentirá.

“Quando Cristo veio ao nosso mundo, Satanás estava em campo, e disputou cada palmo de avanço, em Sua vereda desde a manjedoura até ao Calvário. Satanás acusara a Deus de exigir abnegação dos anjos, quando nada sabia Ele mesmo do que isso significava, e quando Ele mesmo nenhum sacrifício fazia em favor de outros. Esta foi a acusação que Satanás fez contra Deus no Céu; e depois que o maligno foi expulso do Céu, continuamente acusou o Senhor de exigir serviço que Ele mesmo não faria. Cristo veio ao mundo para desfazer essas falsas acusações e revelar o Pai.” – Ellen G. White, Mensagens Escolhidas, vol. 1, págs. 406 e 407.

(Michelson Borges, jornalista e mestre em Teologia)

http://www.criacionismo.com.br

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