O Retalho Que Mudou Uma História

O retalho que mudou uma história

 

Você acreditaria se eu dissesse que um pedaço de pergaminho de aproximadamente 6,5 cm foi capaz de invalidar milhares de pesquisas de estudiosos alemães no século 19 e início do século 20? Leia o texto abaixo e descubra como isto foi possível.

Sem dúvida, o evangelho de João foi e é o mais criticado até hoje. Muitos afirmam que a linguagem utilizada pelo seu autor não era muito comum no 1º século d.C., a época que Jesus viveu. Termos como “luz”, “trevas”, “espírito” eram ligados ao gnosticismo, uma movimento herético que buscava harmonizar a filosofia grega com o cristianismo, no 2º século d.C. Como o evangelista faz um constante uso destes substantivos, nada mais lógico supor que seu texto foi escrito no 2º século (Ca. 160 d.C), e não no 1º, como a o Novo Testamento, o faz.

Entretanto, com a descoberta dos Manuscritos do Mar Morto a partir de 1947, boa parte deles datados do 1º século A.D., esta acusação caiu por terra. David Noel Freedman, um dos principais estudiosos destes documentos, afirmou que tais termos (luz, trevas, espírito) eram utilizados largamente em escritos judaicos do época de Jesus. Portanto, a acusação com base no vocabulário é sem sentido algum! (1)

Apesar do argumento acima ser bem convincente para datação do 4º evangelho, uma outra história, bem irônica, diga-se de passagem, é mais convincente ainda.

Em 1920, um pequeno pedaço de papiro foi comprado no Egito, mas passou quase 15 anos sem ser notado entre os outros milhares documentos na Biblioteca Johns Rylands, em Manchester, na Inglaterra. Quando um bibliotecário chamado C. H. Roberts observou o pequeno fragmento de papiro (6,5 cm) ele conseguiu reconhecer algumas palavras do capítulo 18 do evangelho joanino. Graças aos seus conhecimentos em papirologia, ele foi capaz de datá-lo entre os anos 115-130 d.C. A data foi confirmada por importantes especialistas do século passado, como Sir Frederic Kenyon e Gustaf Adolf Deissmann.

Vamos avaliar a evidência: um fragmento de papiro contendo versos do Evangelho de João, datado de aproximadamente 125 d.C., e tendo sua origem no Egito. Consigo deduzir duas coisas diante disto: 1) o evangelho foi escrito antes desta data. A tradição cristã afirma que ele foi escrito no final do 1º século, logo, todos os livros que apontavam para uma data posterior (no 2º século) foram invalidados; 2) ele já era bem conhecido, já que diversos elementos do próprio texto e tradição dos Pais da Igreja, sugere uma autoria em Éfeso, na Ásia Menor e esta cópia tinha origem egípcia.  Em outras palavras, o 4º evangelho foi escrito por uma testemunha ocular de Jesus, assim como o texto bíblico sugere.

Esta é a história do papiro P52, o manuscrito mais antigo do Novo Testamento, o retalho que mudou a história da interpretação do evangelho de João.

 

(1) David Noel Freedman, Pam Fox Kuhlken. “What are the Dead Sea Scrolls and Why They Matter”, pp. 93 e 94.

Pastor Luiz Gustavo Assis

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